
Atendimento em grupo e saúde mental
O ser humano vive em grupos. Rituais de
cura feitos em grupo estão presentes nas diversas culturas, inclusive na nossa
(por exemplo, em algumas igrejas). Já o uso intencional do grupo como recurso
dos profissionais de saúde nasceu em 1905, nos EUA quando o doutor Pratt reuniu
seus pacientes tuberculosos em um grupo e constatou que desta forma obtinha
melhores resultados de adesão ao tratamento de saúde. Seguiram-se nos EUA, na
Europa e na Argentina (sim, a Argentina é um polo importante neste campo e influencia
muito a prática dos grupos no Brasil) pesquisas e experiências muito
importantes que originaram distintas escolas de psicoterapia de grupo. A
diversidade do campo dos atendimentos em grupo é tamanha que torna limitada
toda a tentativa de classificação de modalidades e técnicas.
Em comum, temos sempre a concepção de
que o adoecimento e a saúde humana dependem muito das suas relações. Esta
concepção de que os vínculos formam um solo fértil para o desenvolvimento das
pessoas, atravessa as ações do SUS de modo geral. Ela faz parte da própria
estrutura do sistema, está presente, por exemplo, na proposta da Estratégia
Saúde da Família, que favorece um vínculo continuado entre os profissionais de
saúde e a população. Também está presente na realização de grupos os mais
variados na Atenção Básica, como os de caminhada, educativos, de terceira idade
etc. Assim, além do bem que faz o exercício de uma caminhada, ou entender
melhor certo problema de saúde e como tratar-se, espera-se que estas
experiências em grupo produzam saúde ao aproximar pessoas, fortalecendo os
vínculos.
Além desta perspectiva geral, fazemos
grupos no Sistema Único de Saúde - SUS com a intenção de tratamento de
problemas psicológicos e reabilitação psicossocial (este último objetivo diz
respeito ao trabalho com pessoas que se afastaram do convívio na sociedade
devido a suas dificuldades de saúde mental por exemplo, quando passaram por uma
internação psiquiátrica). Podem ser grupos que se reúnem semanalmente e no qual
cada paciente é convidado para falar livremente sobre o que lhe aflige (este é
o modelo “clássico” da psicoterapia de grupo). Pode também se tratar de grupos
que oferecem uma modalidade de tratamento através de elementos derivados do
campo da arte, como o uso de pinturas, argila, ou outras atividades criativas.
Ou ainda, que se organizam ao redor de atividades como passeios ou uma
atividade produtiva de valor econômico, muito importantes na reabilitação
psicossocial. Quem passa por estes grupos frequentemente se surpreende e mesmo
se maravilha ao ser tocado em seu íntimo no contato com os colegas.
Em todos os grupos realizados no SUS há
espaço para diferentes níveis de refinamento técnico por parte dos
profissionais e atrativos distintos para a população.
Grupos são capazes de transformar
vidas, mas um grupo que o faça por uma pessoa, pode dizer pouco ou nada a
outra. Por isso a importância tanto de uma oferta variada quanto das pessoas se
abrirem para a experiência de diferentes grupos em busca do que pode ser
significativo para si.
Em
grupos reencontramos nosso solo humano comum, fortalecemos ou recuperamos as
raízes que nos sustentam como pessoas singulares, nos ajudando na busca da
saúde e no prazer de viver.
Este texto foi
elaborado por Pablo de Carvalho Godoy Castanho, docente do Departamento
de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo – IP/USP.