terça-feira, 29 de setembro de 2020

Atendimento em grupo e saúde mental

Conheça essa estratégia potente de escuta e cuidado

O ser humano vive em grupos. Rituais de cura feitos em grupo estão presentes nas diversas culturas, inclusive na nossa (por exemplo, em algumas igrejas). Já o uso intencional do grupo como recurso dos profissionais de saúde nasceu em 1905, nos EUA quando o doutor Pratt reuniu seus pacientes tuberculosos em um grupo e constatou que desta forma obtinha melhores resultados de adesão ao tratamento de saúde. Seguiram-se nos EUA, na Europa e na Argentina (sim, a Argentina é um polo importante neste campo e influencia muito a prática dos grupos no Brasil) pesquisas e experiências muito importantes que originaram distintas escolas de psicoterapia de grupo. A diversidade do campo dos atendimentos em grupo é tamanha que torna limitada toda a tentativa de classificação de modalidades e técnicas.

Em comum, temos sempre a concepção de que o adoecimento e a saúde humana dependem muito das suas relações. Esta concepção de que os vínculos formam um solo fértil para o desenvolvimento das pessoas, atravessa as ações do SUS de modo geral. Ela faz parte da própria estrutura do sistema, está presente, por exemplo, na proposta da Estratégia Saúde da Família, que favorece um vínculo continuado entre os profissionais de saúde e a população. Também está presente na realização de grupos os mais variados na Atenção Básica, como os de caminhada, educativos, de terceira idade etc. Assim, além do bem que faz o exercício de uma caminhada, ou entender melhor certo problema de saúde e como tratar-se, espera-se que estas experiências em grupo produzam saúde ao aproximar pessoas, fortalecendo os vínculos.

Além desta perspectiva geral, fazemos grupos no Sistema Único de Saúde - SUS com a intenção de tratamento de problemas psicológicos e reabilitação psicossocial (este último objetivo diz respeito ao trabalho com pessoas que se afastaram do convívio na sociedade devido a suas dificuldades de saúde mental por exemplo, quando passaram por uma internação psiquiátrica). Podem ser grupos que se reúnem semanalmente e no qual cada paciente é convidado para falar livremente sobre o que lhe aflige (este é o modelo “clássico” da psicoterapia de grupo). Pode também se tratar de grupos que oferecem uma modalidade de tratamento através de elementos derivados do campo da arte, como o uso de pinturas, argila, ou outras atividades criativas. Ou ainda, que se organizam ao redor de atividades como passeios ou uma atividade produtiva de valor econômico, muito importantes na reabilitação psicossocial. Quem passa por estes grupos frequentemente se surpreende e mesmo se maravilha ao ser tocado em seu íntimo no contato com os colegas.

Em todos os grupos realizados no SUS há espaço para diferentes níveis de refinamento técnico por parte dos profissionais e atrativos distintos para a população.

Grupos são capazes de transformar vidas, mas um grupo que o faça por uma pessoa, pode dizer pouco ou nada a outra. Por isso a importância tanto de uma oferta variada quanto das pessoas se abrirem para a experiência de diferentes grupos em busca do que pode ser significativo para si.

Em grupos reencontramos nosso solo humano comum, fortalecemos ou recuperamos as raízes que nos sustentam como pessoas singulares, nos ajudando na busca da saúde e no prazer de viver.

 

Este texto foi elaborado por Pablo de Carvalho Godoy Castanho, docente do Departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo – IP/USP.

Desenvolvido pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas